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Região

Bordeaux

Bordeaux é uma das maiores regiões vinícolas da França em área, dividida pelo estuário da Gironda em margem esquerda, margem direita e Entre-Deux-Mers. É berço de vinhos tintos de grande capacidade de envelhecimento e dos brancos doces de Sauternes.

Revisado por Tito Dias em 01/10/2026

Videira velha com brotos de primavera em vinhedo de Bordeaux
Foto: Acervo VSX Experiências

Números de uma região gigante

A Gironde, departamento de Bordeaux, é o primeiro departamento vitícola da França, com 91.543 hectares de vinhedo em produção, dos quais 86.600 ha em AOP. Ainda assim, a área vem encolhendo: caiu 23% em 15 anos, com cerca de 21.000 hectares arrancados entre agosto de 2023 e maio de 2026.

A colheita de 2025 foi de 3,2 milhões de hL, sendo 2,9 milhões em AOP — o maior volume do país sob denominação de origem. O rendimento médio da última década é de 39,8 hL/ha, abaixo dos 46 hL/ha registrados dez anos antes, e 83% do volume é de vinho tinto, ante quase 90% uma década atrás.

A região emprega 42.565 trabalhadores em cerca de 3.000 estabelecimentos vitícolas, e cerca de 400 négociants respondem por aproximadamente 70% da comercialização. Em 2025, as exportações somaram 1,36 milhão de hL e €2 bilhões, com queda de 9% em volume e 7% em valor: os Estados Unidos assumiram a liderança em volume, enquanto a China recuou 34%.

Da Antiguidade aos dias de hoje

Os primeiros relatos de cultivo de uvas em Bordeaux datam de 56 a.C., quando o romano Crassus dominou a região de Burdigala. O poeta latino Ausonius, dono de vinhedos na região, relatou o cultivo em uma obra de 379 d.C.

Em 1154, Henrique II — casado com Eleanor da Aquitânia — assumiu o trono da Inglaterra, e o vinho francês ganhou acesso livre ao mercado inglês. A partir do século XVII, comerciantes holandeses passaram a vender os vinhos de Bordeaux por toda a Europa, e alguns deles começaram a buscar padrões mais altos de qualidade: o Haut-Brion foi um dos primeiros vinhos de Bordeaux a ganhar identidade própria e fama internacional. Um privilégio comercial garantia aos negociantes de Bordeaux prioridade no porto — vinhos do interior, como Cahors, Bergerac e Gaillac, só podiam embarcar depois de vendida a safra local.

Até o século XVII, o Médoc era em boa parte um pântano salgado impróprio para a vinha, e os vinhos de prestígio vinham de Graves. Engenheiros holandeses foram contratados para drenar as terras, abrindo canais que escoavam a água para o estuário. Foi nesse solo novo, de cascalho exposto, que nasceram as grandes propriedades que, dois séculos depois, formariam a classificação de 1855.

Os britânicos começaram a classificar os melhores vinhos franceses como 'Cru' ainda antes de 1855, ano em que nasceu oficialmente o sistema de Crus Classés do Médoc. Na segunda metade do século XIX, o oídio e depois a filoxera dizimaram os vinhedos da região, encerrando uma era de ouro. Em 1936 foram criadas as primeiras AOCs francesas, entre elas as de Bordeaux, fixando limites geográficos e regras de produção. Depois da recuperação do pós-guerra, os anos 60 trouxeram novas técnicas que revolucionaram a qualidade dos vinhos.

A geografia do vinhedo

O rio Garonne e o rio Dordogne se encontram no Bec d'Ambès e formam o estuário da Gironda, que desce até o oceano Atlântico. É esse sistema fluvial que organiza toda a geografia de Bordeaux em três grandes blocos.

A margem esquerda reúne o Médoc, Graves, Pessac-Léognan e os vinhos doces de Sauternes. No Médoc ficam as comunas de Saint-Estèphe, Pauillac, Saint-Julien, Margaux, Listrac-Médoc, Moulis e o Haut-Médoc; em Graves, as subdivisões incluem Pessac-Léognan; entre os doces estão Sauternes, Barsac e Cérons. A denominação acompanha o estuário e o rio Garonne, de Lesparre-Médoc até Langon.

A margem direita é dominada pelo Libournais — Saint-Émilion, Pomerol, Lalande-de-Pomerol, Fronsac e Canon-Fronsac — além dos satélites de Saint-Émilion (Montagne, Lussac, Puisseguin e Saint-Georges) e das áreas de Blaye e Bourg.

Entre os dois rios fica o Entre-Deux-Mers, o maior vinhedo de Bordeaux em superfície, que inclui denominações de doces como Loupiac, Sainte-Croix-du-Mont e Cadillac.

As uvas de Bordeaux

Cabernet Sauvignon — De groselha preta e cedro, com taninos altos que envelhecem bem em carvalho. É mais encontrada na margem esquerda, no Médoc e em Graves, onde chega a compor até 70% da assemblage. O clima quente do Médoc e os solos de cascalho bem drenados lhe caem bem; é usada em corte com Merlot, Cabernet Franc, Petit Verdot e, ocasionalmente, Malbec ou Carménère. Na margem direita é bem menos utilizada, por não se adaptar tão bem ao solo.

Merlot — Possui notas de ameixa preta, cereja preta, amora, mirtilo e framboesa. Os taninos são médios e os vinhos envelhecem muito bem. Representa dois terços das uvas tintas plantadas em Bordeaux. Tem ciclo de amadurecimento mais curto e reage bem aos solos frios e úmidos de argila da margem direita, onde em Pomerol chega a fazer vinhos quase monovarietais. Na margem esquerda, dá suavidade aos cortes elaborados com Cabernet Sauvignon.

Cabernet Franc — Conhecida na margem direita como Bouchet, é prima da Cabernet Sauvignon: corpo de leve a médio, pouco tânica, frutada e com toques herbáceos. É minoritária na margem esquerda, perdendo espaço para a Merlot, mas tem grande importância na margem direita, onde o Cheval Blanc é uma de suas grandes expressões.

Petit Verdot — Rica, picante e de grande potencial de envelhecimento, com casca grossa que faz vinhos potentes, tânicos e de cor profunda. Aparece em pequenas quantidades, só na margem esquerda, sobretudo no Médoc. Seu cultivo vem diminuindo pela dificuldade de amadurecimento: só amadurece plenamente em safras quentes e secas, embora seja bastante resistente a fungos.

Sémillon — De cor levemente dourada, com aromas de figo e lanolina, é encorpada e envelhece muito bem. É a principal uva do Sauternes, branco doce de longa guarda, mas também produz brancos secos em Graves e Pessac-Léognan, misturada com Sauvignon Blanc e, às vezes, Muscadelle. Tem boa resistência a fungos, com uma exceção: a podridão nobre. É predominante em Graves, mas vem perdendo espaço para a Sauvignon Blanc no Entre-Deux-Mers.

Sauvignon Blanc — De grama e frutas verdes, afiada e raramente amadeirada. Também prima da Cabernet Sauvignon, com quem compartilha o caráter herbáceo. É usada no Bordeaux Blanc AOC e misturada com Sémillon em Graves e Pessac-Léognan; no Sauternes, costuma compor no máximo 20% da mistura. Em geral é consumida jovem, com exceções envelhecidas em carvalho, como o Pavillon Blanc do Château Margaux.

As denominações regionais

Apesar da fama de tantas AOCs específicas, os vinhos genéricos de Bordeaux têm grande importância comercial: 40% do tinto produzido sai como Bordeaux AOC ou Bordeaux Supérieur AOC, e 60% do branco como Bordeaux Blanc AOC. Esses vinhos podem ser produzidos em qualquer área de Bordeaux, e o Entre-Deux-Mers é a principal região produtora.

O Bordeaux Supérieur exige mais álcool (mínimo de 11% nos tintos e 12% nos brancos), rendimento base menor (59 hL/ha nos tintos e 49 hL/ha nos brancos) e um estágio mínimo de seis meses antes de ir ao mercado. A mesma denominação regional cobre ainda o Bordeaux Rosé e o Bordeaux Clairet, um rosé mais escuro que é tradição local.

O Crémant de Bordeaux AOC é o espumante de método tradicional da região, criado em 1990, em versões branco e rosé, com mínimo de nove meses sobre as borras — boa parte da produção também vem do Entre-Deux-Mers.

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